Salmões expostos à cocaína nadam até 90% mais que o normal, aponta estudo inédito

Por Redação, com g1 21/04/2026 10h10
Por Redação, com g1 21/04/2026 10h10
Salmões expostos à cocaína nadam até 90% mais que o normal, aponta estudo inédito
Estudo rastreou 105 salmões jovens do Atlântico em lago na Suécia e revelou que poluição por cocaína mudou como os peixes se movem pelo ambiente - Foto: Jörgen Wiklund

A cocaína já foi encontrada em rios e mares no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Agora, um estudo internacional mostra que esse tipo de poluição não só está presente na água — como já está mudando o comportamento de animais na natureza.

Pela primeira vez em condições reais, cientistas acompanharam salmões em um lago na Suécia e observaram que peixes expostos à droga passaram a nadar mais e se espalhar por áreas maiores.

O trabalho foi publicado na revista científica "Current Biology".

A pesquisa monitorou 105 salmões jovens durante oito semanas. Parte deles foi exposta à cocaína, outra a uma substância formada quando o corpo humano quebra a droga — a benzoylecgonina — e um terceiro grupo não recebeu nenhuma exposição.

Os resultados indicam que os peixes expostos ao derivado da cocaína nadaram até 1,9 vez mais por semana — o equivalente a cerca de 90% a mais — e chegaram a se dispersar até 12,3 quilômetros além dos demais.

Na prática, isso significa que esses animais passam a circular mais pelo ambiente, o que pode mudar desde a forma como se alimentam até o risco de serem predados.

“Para onde os peixes vão determina o que eles comem, quem os come e como as populações são estruturadas”, explicou o pesquisador Marcus Michelangeli, um dos autores do estudo. 

“Se a poluição está mudando esses padrões, ela pode afetar os ecossistemas de formas que ainda estamos começando a entender.”

Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi que o efeito mais forte não veio da cocaína em si, mas da benzoylecgonina, substância comum no esgoto e frequentemente encontrada em rios.

Os peixes expostos a esse composto foram os que mais nadaram e se afastaram do ponto inicial.

E isso acende um alerta para a forma como o risco ambiental é avaliado. Hoje, muitos estudos focam na droga original, mas deixam de lado substâncias derivadas que continuam ativas no ambiente — e, como mostra o trabalho, podem ter impacto ainda maior.

A presença de cocaína na água não está ligada a descarte direto, mas ao consumo humano.

Depois de ingerida, a droga é parcialmente eliminada pelo corpo e segue para o sistema de esgoto.

Como as estações de tratamento nem sempre conseguem remover completamente esses compostos, eles acabam chegando a rios e lagos.

Os pesquisadores destacam, contudo, que não há evidência de risco para quem consome peixe.

As concentrações analisadas refletem níveis já encontrados em ambientes poluídos, e os animais estudados ainda eram jovens, abaixo do tamanho permitido para pesca.

Ainda assim, os impactos de longo prazo permanecem incertos.

Os cientistas querem entender se o aumento na atividade pode fazer os peixes gastarem mais energia, se ficam mais expostos a predadores ou se isso afeta a reprodução.

Por enquanto, a principal conclusão é que substâncias associadas ao dia a dia humano já estão interferindo no comportamento da vida selvagem, muitas vezes de forma invisível, mas potencialmente relevante para o equilíbrio dos ecossistemas.