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Sobre perder e a noção de eternidade: um tributo a uma grande mulher

Por Thiago Abel com Thiago Abel 14/01/2026 16h04 - Atualizado em 14/01/2026 16h04
Por Thiago Abel com Thiago Abel 14/01/2026 16h04 Atualizado em 14/01/2026 16h04
Sobre perder e a noção de eternidade: um tributo a uma grande mulher
Céu de Arapiraca - Foto: Arquivo Pessoal. Abel

          05 de janeiro de 2026 é daquelas datas para nunca mais esquecer. Falo de um lugar de muita memória e de uma dor que somente alguns dias após o ocorrido consigo elaborar sem o mínimo de lágrimas. A morte marcou essa data, essa tal morte que segue como um dos maiores dilemas da existência humana. O que seria a morte? É ela o fim? Um início? Uma pausa, conforto ou descanso? Irremediável, sim. Insignificante? Jamais.

A passagem de minha mãe deste plano para outro me fez avaliar muitas questões, e vou dividi-las aqui com vocês.
           Claudenice Salgueiro Bem, uma grande mulher. Para muitos, talvez apenas mais uma entre tantas anônimas, longe dos holofotes, sem grandes feitos políticos, esportivos, econômicos ou sociais. Talvez nunca seja nome de rua, escola, hospital ou praça. Talvez nunca seja agraciada com uma honraria institucional. Mas, como tantos milhões de brasileiros, deixou um legado em seu ciclo que é digno de narrativas épicas em nível de cronistas de alto nível. Para os seus, foi uma figura basilar da qual ela mesma nunca se deu conta. Era uma mulher de seu tempo, exposta a tantas violências e frustrações que a marcaram com intensa e irreversível força. Mãe cedo, levada à vida adulta por imposição da realidade, daquela vida que decide por nós e, quando nos damos conta, restam poucas opções. Após criar os irmãos, diante da morte prematura da própria mãe, casou-se cedo, criou mais cinco filhos e viu a realidade bater à porta e engolir muitos de seus sonhos. Uma escolha? Tenho cá minhas dúvidas.
          Nas idas e vindas da vida, dedicou suas últimas décadas à saúde pública, onde conquistou uma legião de admiradores. Entre pacientes e profissionais que passaram por sua trajetória, muitos se encantaram com sua afetuosidade, cuidado, senso de justiça e empatia com os mais necessitados. Aos 57 anos, fez sua despedida após um cortejo intenso que só agora é possível observar e compreender. Adepta da boa música, amiga leal, mãe com intensidade de leoa para defender os seus e uma avó que, como tantas, dedicou à neta toda a capacidade de amar e mimar sua pequena. Seus dotes culinários e seu humor cativaram muitos e deixaram os dias menos gostosos e menos alegres para aqueles que ficaram.
          Como explicar essa morte? Como aceitar que uma pessoa tão intensa e necessária simplesmente se foi? Se os grandes filósofos tentaram e fracassaram em teorizar essa passagem, quem sou eu para me arriscar? A religião conforta, a ciência explica o ato, e os sentimentos que ficam impedem a aceitação plena — mas ainda assim é possível refletir.
          Ironicamente, a morte nos presenteia certa imortalidade. Sim, a finitude da matéria é trocada pela longevidade da lembrança: da memória, do afeto, das homenagens e, principalmente, do legado transmitido às gerações futuras. Hoje me coloco na missão de levar adiante sua história, assim como ela me trouxe as histórias daqueles que vieram antes dela.
          Uma perda dessa magnitude marca o ser humano em todas as camadas da existência. As partidas são mais dolorosas no luto — essa ferida que, por um tempo, tira cor, sabor e cheiro da vida e deixa em seu lugar um imenso vazio que paralisa tudo. Seguir exige força, sobretudo de quem ficou. Curiosamente, a cada dia, quem se foi se faz mais presente, com menos dor e mais beleza na imagem que construiu.

Eternizar é um exercício diário. A matéria já não vive mais, mas aquilo que ficou nem mesmo o tempo apaga.

          Fica uma reflexão: como construímos nossa eternidade? Não falo de pecado ou salvação, mas de memória, legado e presença na vida dos que permanecem após nossa partida.

Quanto de saudade e de falta deixaremos?

Professor Thiago Abel

Comunicação por instinto;
Professor de história e atualidades;
Especialista em Psicopedagogia;
De esquerda;
Defensor dos direitos humanos;

Em constante adaptação pra encontrar a melhor versão de mim mesmo.

Blog voltado pras questões atuais que nos afligem. Educação, política, comportamento e tudo mais que me inquietar a opinar.

Sintam-se em casa!

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