Bastidor da operação que investiga Alexandre Pires teve 'teatro' em Manaus, entulho na Tailândia e ameaças de chamar o FBI
Quando os técnicos de um laboratório na Tailândia abriram os lacres de sete contêineres vindos do Brasil, esperavam encontrar toneladas de mineração de estado de alta pureza. Encontraram entulho. O "golpe do pó de brita", desvelado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF), transformou a extração ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami em uma fraude internacional de R$ 250 milhões contra a gigante suíça Gerald Metals — que, temendo o desgaste de sua imagem em ter financiado minerais sem licença na Amazônia, preferiu assimilar o prejuízo a ver a história exposta ao mercado.
No Brasil, a engrenagem mantida pelos irmãos Diego e Matheus Possebon contribuiu para canalizar R$ 85,7 milhões lavados em empresas de fachada e irrigar os negócios do cantor Alexandre Pires, apontam as investigações às quais o GLOBO teve acesso.
Documentos sigilosos da operação Disco de Ouro obtidos pelo GLOBO identificam Diego como o chefe da organização criminosa, enquanto Matheus — empresário artístico de expressão nacional — funcionava como a ponte entre a extração clandestina do minério e o show business . O esquema, que envolveu o envio de contêineres cheios de areia e pó de brita para a Ásia no lugar de cassiterita, conhecida como “ouro negro”, repatriou dólares por meio de intermediadores de pagamentos e canalizou mais de R$ 30 milhões para o cantor Alexandre Pires e sua produtora, a APN Serviços Ltda. Nesta quarta-feira, a PF fez buscas em endereços ligados aos empresários e ao pagodeiro em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.
A engenharia do esquema consistia em reter a mineração extraída ilegalmente, enganar compradores na Ásia enviando contêineres cheios de pó de brita e areia, e repatriar os dólares adiantados em um esquema informal de compensação (dólar-cabo/hawala) que abasteceu o clã Possebon e seus aliados, entre eles as empresas suíça Gerald Metals e americana MLS Berkowitz Investments LLC diante da exportação de 733 toneladas de cassiterita ilegalmente extraída da reserva indígena entre 2021 e 2022.
A investigação da PF e os bastidores de um acordo de colaboração premiada na 4ª Vara Criminal Federal de Roraima revelam como o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami se conectou a este golpe internacional e irrigou as contas do cantor Alexandre Pires e de seus empresários.
As provas e planilhas financeiras apreendidas pela PF apontam que o líder do esquema, Diego Possebon, controlou a distribuição de R$ 85,7 milhões de lavagens no país, canalizando R$ 10,9 milhões para sua própria família, R$ 4,1 milhões para um ex-sócio de seu irmão Matheus Possebon e R$ 2,53 milhões diretamente para a empresa APN Serviços Ltda, de titularidade do pagodeiro Alexandre Pires — suspeito de ceder a estrutura de seu negócio musical para ocultar a origem ilícita do dinheiro do garimpo e do estelionato.
No destino final dessa teia bancária, análises do Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) e comprovantes apreendidos revelam que o valor sob investigação vinculado ao cantor e à sua empresa supera R$ 38 milhões, divididos entre transferências e repasses milionários efetuados por uma empresa de comércio de aços sem qualquer relação com a atividade artística do cantor. O Relatório de Inteligência Financeira do Coaf revelou que a Metalsur — empresa de comércio de aços que recebeu os dólares de Gerald/MLS — repassou também mais R$ 21,3 milhões para Alexandre Pires e R$ 5, 3 milhões para a APN Serviços Ltda.
Para dar aparência legal à mineração extraída ilegalmente do território ianomâmi, a mineradora Betser, de propriedade de Christian Costa dos Santos, teria utilizado, segundo as investigações, Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) "esquentadas" no Pará. Imagens de satélite feitas pela PF provaram que na área apontada no papel como origem da produção jamais houve atividade extrativa registrada— apesar de ostentação de notas fiscais relativas a mais de 110 toneladas de cassiterita.
O nó na operação da quadrilha ocorreu em fevereiro de 2022, quando a PF apreendeu 100 toneladas de minérios estocadas nas galpões da empresa em Boa Vista. Pressionados por um contrato milionário assinado com a suíça Gerald Metals SARL via intermediários americanos, e sem o produto para entregar, o grupo optou pela fraude acintosa: preencheu os contêineres com detritos de pedreira (areia e pó de brita).
A farsa que o clã chamou internamente de “operação” ruiu oficialmente em 17 de maio de 2023, quando os primeiros sete contêineres vindos do Brasil desembarcaram no porto de Songkhla, em Tailândia. A suíça multinacional Gerald Metals havia adiantado cerca de US$ 48 milhões — equivalente a 85% do contrato —, exigindo uma concentração mínima de 65% de cassiterita. Quando os técnicos asiáticos abriram os lacres e submeteram o material aos testes laboratoriais, concluíram que a carga continha menos de 1% de minério, sendo composta basicamente por areia e pó de brita.
Ao todo, segundo as investigações, a rede criminosa despachou 129 contêineres para portos de Tailândia, China e Malásia. Em todos os 109 destinatários abertos pelas autoridades e auditores, o cenário se repetiu de forma idêntica. Notificada pelos suíços, a empresa de logística Adukargo, em Manaus, escancarou a armação e revelou que uma vistoria acompanhada semanas antes por um representante da empresa não passou de um teatro montado por Diego Possebon e Christian Costa dos Santos, e que a carga entregue no pátio amazonense sempre foi declarada no papel como mero detrito de pedreira.
O golpe deflagrou uma crise internacional. Executivos da Gerald Metals desembarcaram às pressas no Brasil, e ameaçaram acionar o FBI e a Polícia Federal caso os US$ 48 milhões adiantados não fossem devolvidos imediatamente. No entanto, a preocupação dos empresários era a repercussão de que o caso teria perante investidores, clientes e o mercado financeiro internacional caso viesse a público que a empresa havia pago um valor exorbitante por minérios da Amazônia sem os devidos controles de conformidade socioambiental e vistoria de carga. E acabaram desistindo e assimilando o golpe.
Com o adiantamento de US$ 48 milhões pago pelos compradores estrangeiros, a organização criminosa repatriou a fortuna para o Brasil sem acionar os alertas do Banco Central ou do Coaf. O dinheiro entrou em contas nos Estados Unidos e foi compensado no Brasil por empresas de fachada, que pulverizavam o montante em reais para uma teia de "laranjas" e aliados. No total, R$ 85,7 milhões foram rastreados de forma direta a partir das delações que trouxeram vasto acervo probatório que incluía documentação paralela, extratos e cópia integral de aparelhos celulares.
Reparação de mais de R$ 1 billhão
A procuradora Sofia Freitas Silva, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) conta que o MPF concordou com as medidas requeridas pela Polícia Federal porque havia “elementos consideráveis” de cometimento de crime dos investigados.
— É sempre dessa forma, mas a decisão final sobre formação de culpa só ocorre ao final das investigações, que não se encerram com a deflagração desta operação — afirma ao GLOBO.
O também procurador do Gaeco, Alisson Marugal, diz que, paralelamente à investigação criminal, o MPF apura, na esfera cível, a responsabilidade dos integrantes da cadeia de comercialização da cassiterita, da exportação em Roraima até os compradores no exterior, pelos danos causados ao povo Yanomami durante a crise humanitária de 2020 a 2022. Somente o valor do minério e os danos ambientais, segundo estimativa técnica preliminar, superam R$ 1 bilhão.
— Mas a reparação buscada vai além: alcança os impactos sobre a saúde, a cultura e a organização social das comunidades, que o MPF vem documentando a partir de depoimentos colhidos nas aldeias e de dados de saúde do território — diz.
Pires nega envolvimento
Em uma nota oficial, a defesa de Alexandre Pires afirma que ele "não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena” e que o cantor foi "tomado de surpresa" com os desdobramentos da operação, que “indevidamente envolveu seu nome”. O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso acrescentou que Pires nunca cometeu nenhuma ilegalidade, como “já está sendo devidamente demonstrado no curso das investigações”.
A defesa de Diego Possebon enviou ao g1 uma nota informando que a operação de ontem foi relacionada a fatos antigos que já foram explicados às autoridades. “O empresário gaúcho atuou regularmente como vem demonstrando quando questionado, inclusive voluntariamente, e segue à disposição para outros esclarecimentos que se façam necessários”, afirmou seu advogado, Alexandre Wunderlich.
A Opus Entretenimento informou também em um comunicado que “não foi notificada, procurada ou objeto de qualquer medida judicial” na Operação Disco de Ouro. “Foi cumprido um mandado de busca e apreensão em um endereço particular do presidente do Conselho da companhia”, afirmou a empresa. “Ele não foi detido, colaborou com a entrega dos documentos solicitados e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários”.
A defesa de Matheus Possebon afirmou que “recebeu com surpresa” a nova fase da operação, e, como o irmão, argumentou que os fatos investigados “são antigos” e o empresário “sempre esteve à disposição das autoridades”. A nota do advogado Fábio Tofic Simantob afirma que “Matheus é empresário dos setores de música e entretenimento e nunca atuou no comércio ou na exportação de minérios”.
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