Quinze anos de dor e esperança: Justiça julga, dia 10, mais um envolvido no assassinato de Luiz Ferreira, ex-vereador de Anadia
Na próxima quarta-feira, 10 de setembro, a família do médico, professor e ex-vereador Luiz Ferreira enfrenta mais uma etapa da caminhada de dor e esperança, que se arrasta há 15 anos. Nesse dia, vai a júri popular o quarto réu do caso — um dos executores materiais do crime, que permaneceu foragido por anos e que recebeu a quantia de R$ 500 para tirar a vida de Luiz Ferreira, brutalmente assassinado em 2011 após denunciar esquemas de corrupção em Anadia, uma vítima que virou símbolo da resistência contra a violência política e o coronelismo de pistolagem.
Três dos acusados da morte de Luiz Ferreira já foram julgados e condenados a penas que ultrapassam 30 anos de prisão por crime hediondo. No entanto, a família reforça que a resposta definitiva da Justiça só estará completa quando todos os envolvidos forem condenados.
A trajetória de Luiz Ferreira em Anadia foi pautada pela ética. Ao assumir o mandato de vereador em 2010, declarou oposição aos desvios de recursos públicos. As denúncias que ele articulava incomodaram as estruturas locais de poder. Às vésperas de apresentar um dossiê com relatórios de irregularidades na prefeitura, teve sua voz silenciada: foi emboscado e fuzilado à luz do dia dentro do próprio carro, quando retornava para o convívio da esposa Rita Namé e dos três filhos — Mariana, Pedro e Diego.
"Eliminar opositores é a marca de quem faz política para manter privilégios. Meu pai não era homem de caridade assistencialista; ele acreditava na política pública, no SUS e no fortalecimento das instituições", relembra a filha Mariana Namé em uma forte reflexão assinada pela família. "Tentaram nos calar, mas a coragem e o amor são maiores. Coragem é seguir de cabeça erguida e lutando por justiça social, exatamente como meu pai fez."
Violência política
A luta da família de Luiz Ferreira ocorre em um estado que carrega marcas do coronelismo. Levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e da USP, divulgado em fevereiro deste ano, revela que Alagoas lidera o ranking nacional de violência política, levando em consideração o número de atentados, ameaças e homicídios contra detentores de cargos eletivos pelo eleitorado.
Em uma carta assinada, a família ressalta que essa violência não é traço cultural do povo nordestino, mas sim a herança de uma elite coronelista que usa a pistolagem para perpetuar dinâmicas de poder e manter desigualdades sociais. "Todo o folclore construído em torno dos matadores esconde a pergunta que realmente importa: quem mandou matar?", aponta o texto. "Os mandantes não podem continuar desfilando impunes, perpetuando heranças de poder e morte."
Para a esposa e os filhos de Luiz Ferreira, a condenação dos responsáveis não trará o médico de volta à vida, nem devolverá o pai, o marido e o profissional dedicado à saúde pública. No entanto, acreditam que a justiça é um dever moral para que outros defensores da democracia não tenham o mesmo fim.
A família convida toda a sociedade alagoana, a imprensa e os defensores dos direitos humanos a acompanharem o julgamento no dia 10 de setembro. "Nesses 15 anos, nossa família sofreu de saudade e esperou por justiça, sem deixar de acreditar em outra forma de fazer política. Para que nunca se esqueçam, para que jamais aconteça: Memória, Verdade e Justiça!"
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