Roberto Sánchez vira sobre Keiko Fujimori em disputa voto a voto no Peru

Por Redação com G1 08/06/2026 18h06
Por Redação com G1 08/06/2026 18h06
Roberto Sánchez vira sobre Keiko Fujimori em disputa voto a voto no Peru
Montagem mostra os candidatos à presidência do Peru Keiko Fujimori (dir.) e Roberto Sánchez em 7 de junho de 2026, dia da votação do segundo turno - Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP

Com 94,6% das urnas apuradas, Roberto Sánchez assumiu a dianteira da corrida presidencial e está à frente de Keiko Fujimori no número de votos do segundo turno das eleições presidenciais do Peru.

Sánchez está com 50,065% dos votos, enquanto Fujimori tem 49,935%, segundo a última atualização do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) às 17h42, no horário de Brasília. Devido à pequena diferença, o resultado da eleição permanece indefinido.

De acordo com a contagem oficial do órgão eleitoral do país, após várias horas com a candidata conservadora liderando a apuração, o deputado de esquerda virou às 14h58 (horário de Brasília).

A candidata conservadora era apontada como favorita pelas pesquisas de boca de urna, mas já era esperado que o deputado crescesse no fim, já que ele é forte nas zonas eleitorais rurais, as últimas a serem contabilizadas.

Keiko, filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, foi a primeira colocada no primeiro turno, com 17,2% dos votos válidos. Sánchez conquistou 12% dos votos válidos na primeira votação.

As seções eleitorais foram fechadas às 17h locais (19h no horário de Brasília) de domingo, após uma jornada sem maiores incidentes, ao contrário do caótico primeiro turno, marcado por falhas técnicas e denúncias de fraude.

Primeiro turno fragmentado

O país foi às urnas em meio a um cenário político fragmentado, com um recorde candidatos à presidência no país: 35 ao todo.

Lucas Berti, cientista político, pesquisador sobre o Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, afirma que, de fato, o que aconteceu nessas eleições é consequência de uma descrença nas instituições.

“É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar", afirmou.

9 presidentes em 10 anos

O Peru contabilizou 9 presidentes em 10 anos. Para se ter ideia, os mandatos presidenciais no Peru são de 5 anos. Ou seja, em uma estabilidade democrática, o país teria apenas dois presidentes neste mesmo período. Porém, a realidade foi outra, e alguns líderes não duraram nem 5 dias no cargo.

“Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu”, diz Berti

Além disso, o artigo 113 da Constituição peruana afirma que um presidente pode ser derrubado por "incapacidade moral ou física permanente" - e quem avalia esse diagnóstico são os parlamentares.

Então, por exemplo, se o Congresso não gosta simplesmente de uma lei que o presidente tenta passar, eles podem acionar esse artigo, votar e, em menos de 24 horas, derrubar um presidente que foi eleito pela maioria da população.

Para o cientista político Berti, essa facilidade do processo demonstra a fragilidade institucional em jogo no Peru. De acordo com ele, nos últimos anos, a coalizão fujimorista, de maioria absoluta no Congresso, vem articulando poderes, seja no Legislativo, nos tribunais ou no sistema judiciário.

Desde 2008, a filha de Alberto Fujimori lidera essa corrente fujimorista ao fundar o partido Fuerza Popular e tenta chegar ao Poder Executivo no Peru. Só que isso não acontece, explica Berti.

"Keiko perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno, por margens muito apertadas. E agora nessa eleição, em 2026, passa para o segundo turno com uma margem maior de votos. Alguns institutos dão vantagem para Keiko, outros para o Sánchez. O que indica uma coisa: a eleição será difícil e o resultado ainda está em aberto", diz Berti.

Democracia em crise: 'desconfiança crônica'

A consequência dessa queda de braço entre Executivo e Legislativo no país resultou não só em uma profunda crise política, mas também na forma como a população enxerga a democracia.

"A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos 10 anos. E a desconfiança no Congresso passa de 90%, especialmente durante o processo que iria resultar na queda da ex-presidente Dina Boluarte, em 2025", explica Berti.

Os dados mais recentes da pesquisa do Latinobarómetro, que mede o nível de democracia nos países da América Latina, apontam que o Peru enfrenta um dos níveis mais baixos de confiança nas instituições se comparado a outros países da América Latina. Há o que pode ser classificado como uma "desconfiança crônica".

De acordo com os dados, 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso; e apenas 10% apenas se dizem satisfeitos com a democracia. Além disso, a pesquisa também notou outro sentimento perigoso: a indiferença sobre a política ou ao tipo de regime de governo.

"Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru e são partidos chamados de 'pouco institucionalizados'. São partidos que não têm raízes efetivas em uma sociedade, que não é um partido que entra para a disputa durante 20, 40 anos. Mas sim legendas que surgem e somem, assim como também não há uma fidelidade dos candidatos aos partidos, que trocam de coalizão também com facilidade", explica Berti.

Todo esse cenário reforça no eleitor a lógica de que os candidatos chegam muitas vezes a uma eleição sem base sólida ou sem um partido conhecido. Isso acaba gerando uma leitura de desconfiança e, muitas vezes, um descrédito e temor da facilidade com que essas pessoas eleitas podem cair.

Sistema unicameral x bicameral

Diferentemente do Brasil, o Peru não tinha o chamado sistema bicameral — em que o Poder Legislativo é exercido por Senado e Câmara dos Deputados. No Peru, o Congresso era composto por apenas uma delas, em que atuavam 130 parlamentares.

No entanto, as eleições deste ano no Peru também restabeleceram o sistema legislativo bicameral, com Câmara e Senado, pela primeira vez em décadas. Desde a realização do primeiro turno do pleito, em abril, o país andino voltou a ter uma Câmara dos Deputados, de 130 cadeiras, e um Senado, 60 cadeiras.

Sob o novo sistema, a destituição de um presidente exigirá aprovação em ambas as Casas, cabendo ao Senado a instância final para determinar o futuro do presidente.

Contexto: Até 1992, o país tinha Câmara de Deputados e Senado. Naquele ano, o então presidente Alberto Fujimori (1938 -2024) deu um “autogolpe”: entre outras medidas, fechou o Congresso, enviou militares às ruas e promulgou uma nova Constituição no ano seguinte. No texto, que foi aprovado por um referendo, ficou determinado que o país não teria mais um Senado, e a regra vigorou até este ano.