Morre o jornalista Raimundo Pereira, referência contra a ditadura
Morreu, neste sábado (2/5), aos 85 anos, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. Natural de Pernambuco, da cidade de Exu, ele vivia com as filhas no Rio de Janeiro. Seu corpo será cremado na tarde de hoje.
Fundador do jornal Movimento, Raimundo é considerado um dos jornalistas mais importantes no enfrentamento à ditadura cívico-militar no Brasil. O jornal criado por ele nasceu em 1975 com o objetivo de denunciar e combater o regime autoritário que, naquela época, passava da sua primeira década de existência.
Já em sua primeira edição, o jornal foi censurado. A repressão contra o Movimento continuou em várias das edições seguintes, mas o periódico se manteve firme até 1981. Construído por meio de financiamento coletivo de jornalistas e sem “patrões”, o Movimento se tornou um marco da imprensa alternativa.
Raimundo passou por grandes veículos do país, como O Estado de S. Paulo e as revistas Realidade e Veja. Nesta última, fez parte da equipe que lançou a revista, e foi um dos nomes envolvidos no dossiê que denunciou a tortura no governo Médici, em 1969. Foi, ainda, editor do jornal Opinião, do empresário Fernando Gasparian, de 1972 a 1975.
A carreira do jornalista foi marcada, também, pelo trabalho “Retratos do Brasil”, lançado em 1988, e que reuniu textos de análise da realidade brasileira. Mais tarde, o material daria origem a um livro. Em 1997, fundou a Editora Manifesto.
Em nota, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) disse que Raimundo deixa um legado marcado pelo “rigor jornalístico, pela coragem política e pela construção de uma imprensa comprometida com a verdade e com o interesse público”.
A nota da ABI traz um depoimento de Marcelo Auler, conselheiro da associação e amigo de Raimundo, que definiu o colega como “um guerreiro” na luta pela democracia.
“Raimundo Rodrigues Pereira foi um guerreiro e empreendedor da informação, do jornalismo, mas acima de tudo da Democracia, com ‘D’ maiúsculo”, afirmou.
Apesar de ter nascido pernambucano e ter morrido no Rio, boa parte da trajetória do jornalista se deu no estado de São Paulo. Sua família mudou para o interior paulista quando ele ainda tinha 3 anos. Aos 19, ele passou a cursar engenharia no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos.
Acabou expulso do ITA no 5º ano da faculdade, em 1964, após sofrer perseguição por causa de um jornal estudantil. Naquele mesmo ano, foi preso pela ditadura. Depois de solto, cursou física na Universidade de São Paulo (USP), mas, até o fim, seguiu trabalhando como jornalista.
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