Família assentada investe em cafeicultura na Zona da Mata de Alagoas
A 70 quilômetros de Maceió, capital de Alagoas, André Souza, 40 anos, e Manoela Souza,
38 anos, assumiram o desafio de implantar a cultura do café no assentamento Chico
Mendes/Bebidas, localizado no município de União dos Palmares. O casal trocou a cidade pelo
campo com um plano ambicioso que envolve o cultivo do café, beneficiar o grão e mobilizar outras
famílias.
André é mineiro da cidade de Mantena e desde 2011 mora no estado de Alagoas. Trabalhava
na construção civil. Com a oportunidade de ingressar como beneficiário da reforma agrária, ele
retomou uma atividade produtiva que fez parte de sua juventude e início da vida adulta e até hoje se
mantém na família: o cultivo de café.
André, a esposa e a filha, de três anos, saíram de um bairro na periferia de Maceió e fixaram
residência no assentamento Chico Mendes/Bebidas, que está situado numa região de relevo
acidentado, com muitas serras, e clima frio e úmido. Começa, então, um novo capítulo na história
dessa família.
A poucos metros da casa, construída com recursos do Incra, avistam-se as áreas de plantio
do café, que, atualmente, compreendem 1,5 hectare e sete mil cafeeiros. Futuramente, André
pretende ampliar a área plantada para cinco hectares. Ele utiliza a técnica de terraceamento, com a
plantação em degraus, que se ajusta à declividade do terreno, facilita o trabalho do agricultor e
diminui a erosão do solo. O lote da família está situado numa localidade com 400 metros de
altitude.
“As características climáticas do assentamento propiciam as condições de cultivo do café em
relação à altitude, clima e solo, favorecendo também que outros assentados invistam nessa
produção”, avalia o superintendente do Incra Alagoas, Júnior Rodrigues, em visita ao assentamento.
Rodrigues acrescenta que o tipo de grão escolhido, arábica, favorece a agricultura familiar pela
perspectiva de retorno econômico em pequenas áreas de cultivo.
O agricultor tem mobilizado outras famílias do assentamento Chico Mendes/Bebidas e dos
vizinhos Santa Maria II e Limão, também em União dos Palmares, a aderir ao cultivo de café. Até o
momento, nesses três assentamentos, outras 12 famílias estão com aproximadamente 14 mil
cafeeiros em seus lotes.
“Meu sonho sempre foi mexer com café. Além de estar fazendo o que eu gosto, com o café
eu vejo o futuro e a esperança de ter algo melhor para mim, meus vizinhos e toda a região. Isso não
tem preço”, sonha o agricultor, que está entusiasmado com essa nova etapa da vida.
Em seu lote, André e Manoela também instalaram viveiros de mudas de café. O trabalho já
atingiu uma expressiva marca: eles possuem 40 mil unidades de mudas, todas já negociadas com
outros assentados e agricultores familiares de cinco municípios alagoanos: União dos Palmares,
Flexeiras, Santana do Mundaú, Murici e Jundiá.
Como a cafeicultura é uma atividade pouco desenvolvida na reforma agrária em Alagoas, o
lote do casal tem atraído curiosidade e recebido muitas visitas de agricultores, associações rurais e
instituições públicas, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Do grão ao pó de café
André prevê que a colheita da primeira safra ocorra a partir de maio e se estenda até junho.
Enquanto isso, tem se preparado para estruturar a atividade, de modo que consiga beneficiar os
grãos colhidos do seu lote e dos vizinhos. Mais à frente, o plano é montar uma cooperativa.
Além do lote, o superintendente do Incra informa que o instituto fez a entrega do Contrato
de Concessão de Uso (CCU) e a inscrição do assentamento Chico Mendes/Bebidas no Cadastro
Ambiental Rural (CAR). O assentado também está inscrito no Cadastro Nacional da Agricultura
Familiar (CAF). Esses documentos permitem acessar políticas públicas, como linhas de
financiamento da autarquia e do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar
(MDA). André deseja aderir a um financiamento pelo Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar (Pronaf), que tem modalidades com condições diferenciadas para famílias
assentadas.
Esses recursos serão importantes na estruturação do lote. André iniciou a construção de um
galpão para abrigar uma agroindústria. Já adquiriu um secador de grãos e uma máquina para
descascar o café. As próximas aquisições serão máquinas para torrar e moer. A meta do agricultor é
produzir o pó do café e criar uma marca própria. Para auxiliá-lo nesse objetivo, conta com a
assessoria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Ainda neste ano, a família assentada se prepara para realizar um evento de degustação do
primeiro lote de café torrado e moído.
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