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Em um sábado qualquer, ele lembra que ainda está lá.
São 18h15 de um sábado qualquer, e o mundo lá fora está em êxtase pelos dias de folia pré-Carnaval. Saio para comprar um remédio na farmácia do bairro, olho para o céu e o peito aperta; o coração se conecta com os mais profundos pensamentos. Uma lágrima teimosa quer sair, mas algo a prende.
Dizem que o luto se parece com um monte de coisas: com areia da praia depois de um dia no mar ou como glitter depois de uma festa, quando, mesmo após dias ou até meses, ainda é possível encontrar um vestígio de um grão pelos cantos. Até faz sentido. Mas eu tenho pensado o luto como um copo de vidro que caiu no chão da cozinha, sobre o piso branco. Muitos cacos maiores você encontra na hora, ali perto de onde caiu. Passa a vassoura, encontra mais alguns por baixo do armário, da geladeira e pelos cantinhos do tapete ao pé da pia. Depois de uns dias, você puxa o fogão e acha mais um. No fim do mês, ao trocar o gás, lá está outro pedacinho do copo. Meses depois, você faz aquela faxina, lava tudo e, quando vai secar e torce o pano para tirar a água suja, machuca a mão: era ele lá, presente, minúsculo, mas capaz de cortar e fazer você lembrar. E você pensa: será possível que vou encontrar para sempre pedaços daquele copo? Mas é isso. O pó do vidro está espalhado por tantos cantos que podem passar anos, e você ainda vai encontrar uma faísca dele.
No luto, a gente acha que está até bem depois de alguns dias, ou até de alguns meses. Ainda não completei um ano da perda do meu pedaço de mundo, mas, até aqui, o que tenho vivido é isso: encontrar essa dor em pequenos pedaços da vida.
Ontem eu estava alegre. Me diverti. Até consegui rir um pouco. Mas hoje olhei para o céu e te vi. Te lembrei, te senti. Quis sair correndo para sua casa, passar na padaria, comprar seu pão francês, seu queijo do reino, e te ouvir falar de qualquer coisa enquanto a senhora estava em pé, na frente da pia, coando um café e reclamando de alguma bobagem que não estava do seu jeito
O luto quebra a gente justamente quando estamos certos de que estávamos aprendendo a lidar melhor com a dor da saudade. Existem cacos pequenos, tiquinhos de pó embaixo de panos, móveis, fotos, cheiros, lugares, músicas e até pessoas. Partezinhas minúsculas que machucam e até fazem sangrar o coração de quem não pode mais ouvir aquela voz ou sentir a presença física de um abraço.
O luto é uma mistura de sentimentos e ausências que nada no mundo é capaz de resolver.
Se cabe uma dica, eu deixo aqui: aproveite cada segundo com os seus. A eternidade que a morte traz é grande demais, e nela cabe muito mais saudade do que a gente consegue guardar.
Professor Thiago Abel
Comunicação por instinto;
Professor de história e atualidades;
Especialista em Psicopedagogia;
De esquerda;
Defensor dos direitos humanos;
Em constante adaptação pra encontrar a melhor versão de mim mesmo.
Blog voltado pras questões atuais que nos afligem. Educação, política, comportamento e tudo mais que me inquietar a opinar.
Sintam-se em casa!
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