PF indicia Vorcaro e ex-presidente do BRB e pede prorrogação do inquérito ao STF

Por Redação com O Globo 28/10/2026 19h07
Por Redação com O Globo 28/10/2026 19h07
PF indicia Vorcaro e ex-presidente do BRB e pede prorrogação do inquérito ao STF
Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução

A Polícia Federal (PF) indiciou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e mais 13 pessoas por fraudes envolvendo o Banco Master. A PF descreve Vorcaro como líder de uma organização criminosa e lhe imputa supostos crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, induzimento a erro, fraude em fiscalização e lavagem de dinheiro.

Os delitos estão relacionados aos R$ 17,5 bilhões em créditos vendidos pelo Master ao BRB entre julho de 2024 e outubro de 2025. Deste total, R$ 12,2 bilhões, segundo a PF, eram créditos podres, sem a "devida comprovação de sua existência". A Polícia Federal reuniu as principais provas sobre o tema, investigado na primeira fase da Operação Compliance Zero, em um relatório parcial apresentado ao ministro André Mendonça nesta quarta.

De acordo com a PF, Vorcaro é "líder da organização criminosa" e "centralizava as decisões relacionadas à produção, aquisição, cessão das carteiras de crédito utilizadas para captação de recursos" do banco.

A corporação diz que o ex-banqueiro sabia da origem e das inconsistências dos créditos podres. Já Paulo Henrique Costa é descrito como "principal agente de articulação institucional no âmbito do BRB", garantindo que as operações de Vorcaro fossem implementadas no banco público.

Também foram indiciados:

Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Master;
Angelo Antônio Ribeiro da Silva, ex-diretor do Master;
Luiz Antonio Bull, ex-diretor do banco;
Alberto Félix de Oliveira Neto, ex-superintendente do Master;
Allan da Silva Machado;
Henrique Souza e Silva Peretto, empresário;
André Felipe de Oliveira Seixas Maia, então responsável pela Tirreno;
Daniel Lopes Monteiro, advogado do Master;
Diogo Ilário de Araújo Oliveira, ex-diretor do BRB;
José Maria Correa Dias Junior, ex-diretor do BRB;
Dario Oswaldo Garcia Junior, ex-diretor do BRB;
Luana de Andrade Ribeiro, ex-diretora do BRB;
Cristiane Maria Lima Bukowitz, ex-diretora do BRB.

Diligências ainda pendentes

Em documento de 700 páginas enviado ao Supremo Tribunal Federal, os investigadores ainda pediram ao ministro André Mendonça uma prorrogação de 60 dias do inquérito sobre o caso Master. Os policiais destacaram que ainda há diligências em curso na investigação, entre elas a finalização de perícias.

"A apuração abrange acentuada quantidade de contratos celebrados, cédulas de crédito bancário emitidas, múltiplos agentes e sucessivas operações financeiras, societárias e negociais, além de volumoso conjunto de documentos, dados bancários, registros contábeis e elementos telemáticos. A adequada compreensão desse acervo demanda exame técnico especializado e análise integrada das diversas fontes probatórias", escreveu a PF.

A PF ainda quer esclarecer, por exemplo, se houve participação de outras pessoas das equipes do Master e do BRB na elaboração de documentos que geraram as fraudes. Os investigadores também querem aprofundar outras linhas de investigação, que envolvem, por exemplo, suspeitas de crimes de corrupção.

Também está pendente a consolidação de análises bancárias, fiscais, patrimoniais e financeiras dos investigados. A PF quer medir qual foi o "proveito econômico" dos investigados com as fraudes.

A defesa de Daniel Vorcaro disse em nota que o indiciamento foi "um ato açodado e afoito, que antecipa conclusões que a própria investigação admite ainda não ter alcançado". Indiciamento frágil e absurdo: as conclusões se apoiam em leitura seletiva de mensagens e em hipóteses formuladas 'em tese', e não em demonstração técnica. São operações embasadas em decisões técnicas e colegiadas das instâncias de governança de duas instituições supervisionadas pelo Banco Central. Agora são retratadas como crime sem que se tenha aferido seu resultado econômico".

O que diz a investigação

Segundo a PF, o esquema se apoiou na venda ao BRB de carteiras de crédito consignado cuja existência nunca foi comprovada. Entre julho de 2024 e outubro de 2025, o Master cedeu ao banco público cerca de R$ 17,5 bilhões em carteiras. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões correspondem a créditos sem lastro, atribuídos à Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações. De acordo com a investigação, a empresa surgiu de uma sociedade de prateleira, tinha capital inicial de R$ 100, não tinha empregados e usava como sede um coworking em São Paulo, que informou que a Tirreno não era sua cliente.

No papel, o Master comprava os créditos da Tirreno e os revendia ao BRB no dia útil seguinte. Pelas contas do Banco Central, o banco adquiriu formalmente cerca de R$ 6,7 bilhões em créditos e os repassou por R$ 12,2 bilhões, com ganho estimado em R$ 5,5 bilhões. O pagamento à Tirreno, porém, nunca saiu do Master: ficou registrado numa conta interna do próprio banco, o que a PF trata como indício de lavagem de dinheiro.

Os peritos encontraram sinais de que as carteiras foram fabricadas. Mais de 1 milhão de contratos, ligados a cerca de 348 mil CPFs, tinham apenas 1.251 valores diferentes. Numa amostra de cem cédulas de crédito, não foi possível comprovar a existência de nenhuma. Quando o BC cobrou explicações, em março de 2025, o Master atribuiu os créditos a duas associações de servidores da Bahia.

Em junho, passou a apontar a Tirreno como origem. Para sustentar a nova versão, segundo o relatório, integrantes do Master, da Tirreno e de um escritório produziram em massa contratos, procurações e termos de consentimento com datas retroativas. Uma pasta chamada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras” sugere a geração automática de até 2.700 procurações.

Segundo o relatório, aumentos de capital do BRB, comprados em boa parte por fundos ligados ao Master, e a venda de créditos inadimplentes a fundos do mesmo grupo abriam espaço regulatório para novas compras. O BRB já reconheceu perda de R$ 2,7 bilhões, e seus acionistas aprovaram em abril um aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões.