ENEM: ansiedade pode provocar “branco” até em quem estudou? Psicóloga explica como lidar com a pressão na reta final
Professora de Psicologia da Afya Unima explica os efeitos da ansiedade na memória e dá dicas para enfrentar o “branco” durante a prova
A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) envolve meses de estudos, revisões e simulados. Mas, diante da prova, o medo de não conseguir uma boa nota pode comprometer o desempenho até de estudantes bem preparados. O chamado “branco”, quando a pessoa tem dificuldade para lembrar um conteúdo que estudou, pode estar associado à ansiedade e à pressão por resultados.
A psicóloga e professora do curso de Psicologia da Afya Unima, Amanda Lima, explica que a ansiedade pode direcionar parte da atenção para preocupações e pensamentos negativos, como o medo de fracassar, de decepcionar a família ou de não alcançar a aprovação desejada. “O branco não significa necessariamente falta de conhecimento, mas pode refletir uma dificuldade momentânea de recuperar informações sob pressão, diante de uma situação de cobrança por um bom desempenho”, explica.
Segundo ela, a ansiedade também pode prejudicar a concentração e sobrecarregar a memória de trabalho, responsável por manter e manipular informações enquanto realizamos uma tarefa. Nesse cenário, parte da atenção deixa de estar voltada para a questão e passa a se concentrar nas consequências de um possível erro. “O estudante começa a pensar no tempo, nas consequências de errar e no desempenho dos outros, perdendo o foco no enunciado e nas respostas”, afirma Amanda.
O que fazer quando o branco aparece?
Ao perceber a dificuldade para lembrar uma resposta, o estudante deve evitar transformar o episódio em mais um motivo de preocupação. Amanda orienta reconhecer a emoção, respirar suavemente e direcionar novamente a atenção para o enunciado, identificando exatamente o que a questão pede. Analisar as alternativas por partes e procurar informações conhecidas também pode ajudar.
Se a lembrança não vier, outra estratégia é deixar a questão para depois e avançar para as seguintes, retornando quando possível. “É importante saber que não precisamos eliminar todo o desconforto para continuar agindo. O estudante pode sentir ansiedade e, ainda assim, seguir fazendo a prova”, orienta a professora.
Como reduzir a ansiedade na reta final?
Nos dias que antecedem o exame, priorizar o sono, realizar revisões realistas e praticar simulados são medidas que ajudam na preparação. Manter uma rotina equilibrada, com pausas para descanso, alimentação adequada e atividades físicas compatíveis com as condições de cada estudante também é importante.
A professora alerta que tentar aprender todo o conteúdo de última hora e transformar cada hora do dia em uma cobrança pode aumentar a pressão emocional. “Descansar não significa perder tempo. A preparação precisa ser sustentável, sem transformar cada hora do dia em uma cobrança”, destaca.
Familiares e professores também têm papel importante nesse processo. Valorizar o esforço, evitar comparações com outros estudantes, respeitar os momentos de descanso e perguntar como podem ajudar são atitudes que contribuem para uma preparação mais saudável. Associar a aprovação ao valor pessoal do estudante, por outro lado, pode intensificar o medo de fracassar.
Quando a ansiedade exige atenção?
Sentir nervosismo antes de uma avaliação importante é esperado. O alerta surge quando a ansiedade se torna intensa, frequente ou começa a prejudicar o sono, os estudos e a qualidade de vida.
Entre os possíveis sinais estão taquicardia, tremores, sudorese, náuseas, tensão muscular, insônia, medo intenso de fracassar, pensamentos catastróficos e dificuldade de concentração. Alguns estudantes também podem evitar simulados, adiar os estudos por medo de errar ou abandonar situações avaliativas por não conseguirem lidar com o desconforto.
“A presença isolada de um sintoma não significa necessariamente um transtorno de ansiedade. É a frequência, a intensidade e o prejuízo que vão indicar a necessidade de uma ajuda especializada”, explica Amanda Lima.
Quando o sofrimento compromete a rotina, buscar ajuda profissional pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento. A psicoterapia pode auxiliar o estudante a reconhecer padrões de pensamento, lidar com a incerteza e desenvolver uma relação mais flexível com as próprias emoções.
Para a psicóloga, é importante compreender que a ansiedade faz parte da experiência humana e não precisa desaparecer completamente para que alguém consiga realizar uma tarefa. “Sentir ansiedade não significa ser fraco ou despreparado. Podemos aprender a lidar com o medo sem precisar eliminá-lo completamente”, afirma.
A especialista reforça ainda que a aprovação não deve ser tratada como medida do valor pessoal. “O estudante pode desejar muito uma aprovação sem precisar fazer dela a prova do seu valor como pessoa. O Enem é uma etapa importante, mas não define toda a inteligência, a capacidade ou as possibilidades de futuro de ninguém”, conclui.
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