Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa

Por Redação com G1 23/07/2026 19h07
Por Redação com G1 23/07/2026 19h07
Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa
Cenipa divulga resultado final da investigação sobre acidente com avião da Voepass em Vinhedo - Foto: Gabriella Ramos/g1

O avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP) não poderia ter decolado em horário com previsão de chuva porque tinha uma falha no sistema de limpador de para-brisa, apontou nesta quinta-feira (23) o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

A informação foi confirmada durante a apresentação do relatório final sobre o acidente aéreo que matou 62 pessoas em 9 agosto 2024. A aeronave turboélice voo entre oito e dez minutos em uma área com condições de gelo severo.

A apresentação, feita pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa para essa investigação, apontou que antes do voo de Cascavel a Guarulhos, a aeronave apresentava 10 itens com falhas - uma delas no limpador de para-brisa.

"Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", disse Fróes.

"A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", completou.

Falhas no sistema de degelo

O avião também apresentou falhas no sistema de degelo das asas em dois voos na véspera da queda, mas a tripulação responsável não registrou em diário de bordo, apontou o tenente-coronel.

Fróes afirmou que, em voo na véspera da queda, o avião decolou de Guarulhos com destino a Ribeirão Preto e teve uma falha no sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas.

Segundo ele, a tripulação, que não era a mesma do voo que caiu, não reportou isso em diário de bordo.

"A tripulação deveria ter relatado no diário de bordo essa falha para que a manutenção, após o pouso, pudesse verificar o que estava acontecendo com o sistema. O que a comissão verificou é que após o pouso em Ribeirão Preto, na noite anterior, essa falha não foi registrada no diário de bordo da aeronave", disse Fróes.

'Cultura de normalização de desvios'

Além disso, o tenente-coronel apontou que havia uma "cultura de normalização de desvios".

"Essa normalização de desvios, ela vem de uma cultura de informalidade em que pilotos e mecânicos não relataram as panes e as falhas em diário de bordo", detalhou Fróes.

O Cenipa analisou 1.206 voos feitos entre agosto de 2023 até o dia da queda. O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente.

Os investigadores analisaram, entre outras coisas, os conteúdos das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo) e das condições meteorológicas registradas no dia do acidente. Também realizaram exames nos motores, nos sistemas de degelo e de proteção contra estol, além de realizarem um voo experimental com outro ATR 72-500 - veja o que foi feito abaixo.

Em agosto de 2024, um mês depois do acidente, o Cenipa divulgou um relatório preliminar que já apontava que, menos de dois minutos antes de o ATR cair, um alerta na cabine avisou a tripulação que o gelo prejudicava o desempenho da aeronave e que os pilotos comentaram sobre um problema no sistema antigelo logo no início do voo.

O que foi analisado pelo Cenipa?

Entre os principais trabalhos realizados estão:

análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;
exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;
testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos;
análise de equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave;
análise das lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda.

Revisão internacional

Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado:

pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500;
e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave.

Investigação criminal também está na reta final

Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. A expectativa da PF é finalizar ainda em agosto.

No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF.

As conversas eram aguardadas porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo — uma das hipóteses investigadas desde o acidente.

Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos.

O que diz a Voepass

Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas.

A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.

Relembre o acidente

O voo 2283 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo, durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo - 58 passageiros e quatro tripulantes - morreram.

Foi o acidente aéreo mais grave do Brasil desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.

Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes.

Já a Polícia Federal iniciou um inquérito para apurar se houve crime e produzir um laudo próprio sobre o caso, já que o relatório do Cenipa não pode ser usado para responsabilização criminal.

Um mês depois, o Cenipa divulgou o relatório preliminar da investigação. O documento confirmou que a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo e registrou que a tripulação relatou uma possível falha no sistema antigelo durante o voo.

Também mostrou que o sistema foi acionado e desligado várias vezes ao longo da viagem, mas sem concluir se isso ocorreu por ação dos pilotos ou por outro motivo. O relatório, porém, não apontou a causa do acidente.

Enquanto as investigações avançavam, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu as operações da Voepass, em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a companhia de operar voos comerciais.

Na semana em que a tragédia completou um ano, o g1 publicou reportagens exclusivas sobre o caso. Uma delas revelou o relato de um ex-funcionário da Voepass de que um piloto havia informado verbalmente, horas antes do acidente, falhas no sistema antigelo durante um voo anterior, mas que o problema não foi registrado no diário técnico da aeronave.

O g1 também publicou os áudios das conversas entre piloto e copiloto nos minutos que antecederam a queda.

Em 30 de junho de 2026, familiares das vítimas tiveram acesso pela primeira vez às transcrições das conversas gravadas na cabine durante uma reunião com a Polícia Federal.

Quase dois anos depois da tragédia, o Cenipa concluiu as investigações e divulgou o relatório final, que reúne a análise técnica do acidente e recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias.