40 artistas receberam R$ 3 bilhões de prefeituras e governos estaduais entre 2024 e 2026, aponta levantamento
Prefeituras e governos estaduais gastaram R$ 5 bilhões em shows desde 2024, segundo o relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, elaborado pelo De Olho nos Ruralistas. Esse montante ficou concentrado em 100 artistas ou bandas. A título de comparação, o orçamento do Ministério da Cultura deste ano é de R$ 3,26 bilhões.
Durante seis meses, a equipe responsável pelo levantamento analisou mais de 20 mil contratos a partir do Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP) e identificou uma grande concentração dessa verba para poucos artistas. De 2024 até março de 2026, 40 artistas receberam R$ 3,08 bilhões do orçamento público.
O artista em primeiro lugar da lista é Natanzinho Lima, que, no período analisado, recebeu R$ 158,1 milhões em contratos com prefeituras e governos estaduais. Em seguida, aparecem Henry Freitas (R$ 125,9 milhões) e Wesley Safadão (R$ 113,3 milhões). Também foi constatada uma concentração de produtoras ligadas a essas bandas ou artistas: metade das 40 bandas que mais pegaram dinheiro pertence a cinco produtoras comandadas por Wesley Safadão e Xande Avião.
Diretor do De Olho nos Ruralistas, o jornalista Alceu Castilho explica que tudo começou depois da polêmica envolvendo Zezé di Camargo, que, no ano passado, se negou a participar de um programa no SBT depois que o presidente Lula (PT) foi recebido na emissora da família Abravanel. Na ocasião, o sertanejo disse que “não iria se prostituir”.
Castilho e outro colega do portal começaram a buscar repetições de padrões de contratações de shows diversos. O início foi o Sesc, onde notaram que havia, de certa forma, uma concentração de artistas ou grupos. “Foi aí que pensei: ‘Será que as prefeituras também fazem isso?’ E aí eu passei os últimos seis meses, especificamente, debruçado sobre esses dados mais gerais, muito além do Zezé di Camargo. Para você ter uma ideia, o Zezé di Camargo é só o vigésimo entre os artistas mais contratados desde 2024”, revela.
“No cerne desse trabalho, está a investigação sobre a concentração de dinheiro público, no caso, dinheiro da cultura, na indústria cultural, com uma agenda privada movida por múltiplos e amalgamados e simultâneos conflitos de interesse, envolvendo políticos, empresários, bets e o agronegócio”, resume. “Ou seja, não é o talento ou a história desses artistas. É a agenda dessas produtoras que vale, e isso vem sendo muito replicado.”
Sobre o envolvimento com bets, todos os dez artistas que mais receberam cachês de verba pública no período são divulgadores de casas de aposta. Sete são classificados como “embaixadores”, o que os torna propagandistas mais ostensivos. Um dos exemplos é o do cantor Gusttavo Lima, que, durante um desses shows, girou uma roleta de sua patrocinadora.
O envolvimento com o agronegócio pode ser aferido de duas formas: na valorização do modo de vida nas letras e nas cifras entregues a esses artistas em eventos do setor. “Nós observamos, desses cachês, quantos foram pagos dentro de rodeios, de festas que são do agronegócio. O valor de R$ 105 milhões. Para as festas da agricultura familiar, vinculadas ao pequeno produtor, R$ 2,6 milhões. É uma disparidade muito grande”, aponta a jornalista Carolina Bataier, que também integra o monitoramento.
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