'O Agente Secreto' vence prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa no Globo de Ouro 2026

Por Redação, com Terra 12/01/2026 07h07
Por Redação, com Terra 12/01/2026 07h07
'O Agente Secreto' vence prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa no Globo de Ouro 2026
O Agente Secreto - Foto: Victor Jucá

Um ano após o fenômeno de Ainda Estou Aqui na temporada de premiações, o Brasil fez história mais uma vez no Globo de Ouro. 

O Agente Secreto levou o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa neste domingo, 11, confirmando o favoritismo na corrida ao Oscar. Antes de levar a estatueta, o longa-metragem de Kleber Mendonça Filho já havia conquistado um recorde para o cinema brasileiro ao ser indicado em três categorias. Em Melhor Filme de Drama, o filme foi superado por Hamnet.

O filme brasileiro concorreu ao lado de outras produções que também chamaram a atenção ao redor do mundo, como Valor Sentimental, da Noruega, Foi Apenas um Acidente, do premiado iraniano Jafar Panahi, A Única Saída, da Coreia do Sul, Sirat, da Espanha, e A Voz de Hind Hajab, representante da Tunísia. 

História do Brasil com 'S'

O filme que rendeu cerca de 13 minutos de aplausos na 78ª edição do Festival de Cannes se livra das velhas fórmulas "para gringo ver" e retrata o Brasil com 'S', como deve ser.

Lançado oficialmente nos cinemas em 6 de novembro, O Agente Secreto remonta o período da ditadura militar, o mesmo plano de fundo de Ainda Estou Aqui, seu antecessor na temporada de premiações. 

Na obra dirigida por Kleber Mendonça Filho, no entanto, o cenário não é o Rio de Janeiro. Como já é característico do pernambucano, que assina filmes como Aquarius e Bacurau, o eixo "tradicional" é deslocado para o Nordeste brasileiro, mais especificamente a cidade do Recife. 

É para lá que o personagem Marcelo, interpretado por Wagner Moura, se muda em 1977, durante a ditadura militar. Perseguido por assassinos de aluguel em São Paulo, o professor universitário se vê obrigado a retornar para sua cidade natal em busca de paz. 

A volta para Recife, porém, não é tão tranquila quando ele imaginava. Em meio a uma tentativa de esquecer o passado, o protagonista enfrenta perseguição, uma rede de espionagem, paranoias e dilemas morais. 

Tudo isso em um cenário cheio de referências culturais locais, como o tradicional Cinema São Luiz e a história curiosa do Perna Cabeluda, uma lenda urbana que circulou no Recife nos anos 1970. Segundo o mito, a perna humana, descolada do corpo, aterroriza os passantes no centro da cidade com rasteiras e ponta-pés. 

Além da figura central de Wagner Moura como o protagonista da trama, O Agente Secreto também conta com nomes como Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone e Tânia Maria, a carismática Dona Sebastiana. 

Do frevo em Cannes à 'saga' em Hollywood

O longa-metragem foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, em maio de 2025. Antes dos ritos tradicionais e pompas da premiação, a passagem do elenco pelo tapete vermelho não foi nada convencional. 

Ao lado da esposa, a jornalista e fotógrafa Sandra Delgado, Wagner Moura chegou arriscando passinhos de frevo e contagiou o elenco que o acompanhava. "É assim que o Brasil sobe o tapete vermelho do grandioso Festival de Cannes", publicou o Ministério da Cultura nas redes sociais.

Na premiação, O Agente Secreto venceu as categorias de Melhor Diretor, para Kleber Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura. O filme também ganhou o Prêmio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) e o Prêmio Art et Essai e concorreu na principal lista, a Palma de Ouro, mas não levou a estatueta para a casa.

A participação no circuito francês foi só um 'start'. A partir dali, o longa-metragem brasileiro emplacou mais de 50 vitórias em uma campanha internacional impressionante, marcando a boa fase do cinema nacional em uma 'dobradinha' com seu antecessor, Ainda Estou Aqui.

O Agente Secreto levou estatuetas no Festival de Cinema de Lima, em Biarritz, Zurique, Colônia, Hamburgo, Málaga e diversos outros eventos importantes no circuito do audiovisual internacional. 

Expectativa de Oscar

A repercussão positiva na Europa despertou a curiosidade de críticos e revistas especializadas norte-americanos, que passaram a avaliar positivamente a obra de Kleber Mendonça Filho. 

"Em se tratando de filmes de perseguição, este é em câmera lenta, desenrolando-se em um ritmo surrealista que permite a Moura captar cada peculiaridade humana, cada instante de estranheza", escreveu o crítico Wesley Morris, para o The New York Times. O jornal ainda elegeu o filme brasileiro como um dos 10 melhores de 2025, na oitava posição. 

A Variety também aclamou o longa, ao qual chamou de "hipnotizante". Após assistir ao filme, o crítico Peter Debruge escreveu: "Mendonça demonstra uma notável capacidade não apenas de recriar, mas também de nos transportar de volta àquela época, com seu calor opressivo e paranoia". 

O último prêmio notável conquistado por O Agente Secreto até então tinha sido o de Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards 2026, um importante termômetro para o Oscar.

Mas o que podia ser um momento de destaque, virou constrangimento. A entrega do prêmio ocorreu no tapete vermelho, sem todo o rito comum das premiações no palco principal. 

A situação estranha chamou a atenção e atraiu diversas críticas para a organização do evento, que convidou Kleber Mendonça e Wagner Moura para apresentarem a categoria de Melhor Filme ao final da noite. 

Em uma fina ironia, os dois se dividiram no microfone ao anunciar: "Vamos apresentar o vencedor da categoria 'Melhor Filme'. Ou para nós, do Brasil, a categoria de 'Melhor Filme Internacional'", em referência à divisão entre produções de língua inglesa e língua não-inglesa na premiação.

Neste domingo, 11, a equipe de O Agente Secreto já chegou no Globo de Ouro vitoriosa. Isso porque o filme é o primeiro do Brasil a conquistar três indicações na mesma edição, em categorias diferentes: Melhor Filme de Drama, Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator em Drama, para Wagner Moura. 

Em entrevista ao canal Brasil, Kleber Mendonça Filho, que também é jornalista e crítico de cinema, revelou que nunca tinha ido à cerimônia. "Ouvi dizer que tem bebida muito boa, comida (risos). Espero estar em uma mesa com pessoas que eu gosto e fizeram parte do filme", afirmou. 

Com a lista oficial do Oscar programada para ser divulgada em 22 de janeiro, o diretor pernambucano só tem um desejo: "a gente está trabalhando há tanto tempo, né? Queria muito ver um desses Oscars aí. Para Wagner ou para o filme."